1 O Significado de Civilização (Hadhara)
1 The Meaning of Civilisation (Hadhara)
Uma civilização (hadhara) é um conjunto de conceitos sobre a vida.
A civilisation (hadhara) is a collection of concepts about life.
A civilização pode ser divina espiritual (deeniyya ilahiyya) ou fabricada pelo homem (wadh'iyya bashariyya). A civilização divina espiritual emana de uma doutrina (‘’’aqeedah), como a civilização islâmica, que emana da ‘’aqeedah islâmica. Quanto à civilização fabricada pelo homem, ela pode emanar de uma doutrina, como a civilização ocidental capitalista, que é um conjunto de conceitos sobre a vida emanados da doutrina de separação da religião da vida; ou pode não emanar de uma doutrina, como as civilizações xintoísta, grega, babilônica e assíria. Esta civilização é um conjunto de conceitos que um povo ou um grupo de povos acordou entre si, por isso é uma civilização nacional (sh'abiyya) ou fabricada pelo homem.
Civilisation could be a spiritual divine one (deeniyya ilahiyya) or man-made (wadh'iyya bashariyya). The spiritual divine civilisation emanates from a doctrine (‘’’aqeedah); like the Islamic civilisation that emanates from the Islamic ‘’aqeedah. As for the man-made civilisation, either it emanates from a doctrine like the Capitalist Western civilisation that is a collection of concepts about life emanating from the doctrine of separating religion from life. Or it does not emanate from a doctrine like the Shinto, Greek, Babylonian and Assyrian civilisations. This civilisation is a collection of concepts that a people or a group of peoples agreed upon so it is a national (sh'abiyya) or man-made civilisation.
Além disso, um povo ou os povos podem ter uma religião (deen) e uma doutrina qualquer, mas essa religião não tem conceitos sobre a vida, como o Cristianismo e o Budismo. Assim, as pessoas concordam em conceitos sobre a vida específicos a elas, e esses conceitos formam a sua civilização sem que isso tenha qualquer relação com a sua religião, pois não emana dela. Logo, a sua civilização não é divina, apesar de possuírem uma religião. Portanto, é possível que diversos povos se associem numa mesma civilização, apesar da diferença de suas religiões, como os japoneses, os hindus, os sikhs e os franceses; suas religiões são diferentes, mas a sua civilização é uma só, a saber, o Capitalismo.
In addition, a people or peoples could have a religion (deen) and a doctrine whatsoever, but this religion has no concepts about life like Christianity and Buddhism. So people agree on concepts about life specific to them, where these concepts form their civilisation without this having any relationship with their religion, because it does not emanate from it. So their civilisation is not divine despite the fact that they have a religion. Hence, it is possible for various peoples to associate in one civilisation, despite the difference of their religions like the Japanese, Hindus and Sikhs and French; their religions are different but their civilisation is one, namely Capitalism.
Os objetos materiais utilizados nos assuntos da vida não fazem parte da civilização, ainda que, por vezes, resultem dela. Não há objeção em empregar o termo técnico de "madaniyya" para esses objetos materiais tangíveis, a fim de distingui-los do conjunto de conceitos para o qual usamos o termo "hadhara" (civilização). Se esses objetos materiais resultaram de uma civilização específica, como as estátuas, então fazem parte de uma madaniyya específica. Contudo, se resultaram da ciência e da indústria, como a televisão, os foguetes, os aviões, a penicilina etc., então são de madaniyya universal. Assim, a madaniyya pode ser específica e pode ser universal. Isso é contrário à civilização, que não pode ser senão específica. O significado de especificidade (khususiyya) está relacionado à nossa adoção. Assim, o que é específico não nos é permitido adotar de outros, ao passo que o que é universal nos é permitido adotar.
Material objects that are used in life's affairs are not part of civilisation even though they sometimes result from it. There is no objection to give the technical term of 'madaniyya' for these tangible material objects so as to distinguish them from the collection of concepts for which we used the term 'hadhara' (civilisation). If these material objects resulted from a specific civilisation like statues then they are part of specific madaniyya. However, if they resulted from science and industry, then they are of universal madaniyya, like the television, rockets, planes, penicillin etc. Thus madaniyya can be specific and it can be universal. This is contrary to civilisation that cannot be but specific. The meaning of specificity (khususiyya) is related to our adoption. So what is specific is not permitted for us to adopt from others, whereas what is universal is permitted for us to adopt.
A distinção entre civilização (hadhara) e madaniyya deve ser observada em todos os momentos, assim como é imperativo observar a distinção entre os objetos materiais derivados da civilização e os objetos materiais derivados da ciência e da indústria. Isso é para observar, ao adotar a madaniyya, a distinção entre os seus objetos, e a distinção entre ela e a civilização. Não há objeção em adotar a madaniyya ocidental derivada da ciência e da indústria. Quanto à madaniyya ocidental derivada da civilização ocidental, não é permitido adotá-la em nenhum caso, devido à sua contradição com a civilização islâmica na base sobre a qual ela está construída, a saber, a doutrina (‘aqeedah). Nossa ‘aqeedah é diferente da doutrina deles, que está construída sobre a solução de compromisso e sobre a separação entre religião e vida; na concepção da vida mundana ou no critério das ações, que para nós é o lícito (halal) e o ilícito (haram), e para eles é o benefício; e no significado de felicidade, que é a tranquilidade permanente, a qual, para nós, é alcançar o agrado de Allah, e para eles, os prazeres corporais.
The distinction between civilisation (hadhara) and madaniyya must be observed at all times, just as it is imperative to observe the distinction between the material objects derived from civilisation and the material objects derived from science and industry. That is in order to observe, when adopting madaniyya, the distinction between its objects, and the distinction between it and civilisation. There is no objection to adopting Western madaniyya derived from science and industry. As for Western madaniyya derived from Western civilisation, it is not permitted to adopt it in any case whatsoever due to its contradiction with the Islamic civilisation in the basis upon which it is built namely the doctrine (‘aqeedah). Our ‘aqeedah is different from their doctrine that is built upon the compromise solution and separating religion from life; in the depiction of worldly life or the criterion for actions; which is the halal and haram for us, and benefit for them; and in the meaning of happiness which is permanent tranquillity, which is - for us - attaining the pleasure of Allah, and for them the bodily pleasures.
Para que tenhamos plena consciência do que adotamos dos outros e do que deixamos, é necessário distinguir entre civilização e madaniyya, e é necessário distinguir entre a madaniyya resultante de conceitos civilizacionais e a madaniyya resultante das ciências puras e da indústria.
In order that we become fully aware of what we adopt from others and what we leave, it is necessary to distinguish between civilisation and madaniyya, and it is necessary to distinguish between madaniyya resulting from civilisational concepts and madaniyya resulting from pure sciences and industry.
Se for dito: Por que adotou o termo técnico "hadhara" para os conceitos e o termo "madaniyya" para as formas materiais, e não o contrário? Hadhara, na língua, é a residência em uma região civilizada (como as cidades), enquanto "al-hadhir" é aquele que pertence às cidades e às vilas. Al-Qatami disse: "Quem se agrada em residir nas cidades. Que homens beduínos nos verão?" Já "madana", no lugar, significa residir nele, e "madina" significa também chegar à cidade (madinah), de modo que os dois significados estão próximos um do outro. Em resposta a esta pergunta (dirigida a si mesmo), diz-se que hadhara é usada na língua para significados relacionados aos pensamentos, por isso é mais adequado usá-la para os conceitos. Foi dito no "Al-Qamus": "Hadhura é como nadusa, que é o homem de eloquência (bayan) e de compreensão (fiqh)". No "Al-Lisan" está dito: "um homem é 'hadhr' para significar eloquente, e um homem é 'hadhir' se trouxe algo bom". Também consta no "Al-Lisan": "E no hadith: 'Dizei aquilo que yahdhurukum', isto é, aquilo que está presente e existente em vós, e não vos sobrecarregueis com outra coisa." Logo, hadhara é mais próxima, mais coerente e mais apropriada para designar o conjunto de conceitos do que madaniyya, e madaniyya é mais próxima para ser usada em objetos materiais. Diz-se que não há disputa na terminologia técnica (istilah), e que o importante é distinguir entre os conceitos e os objetos materiais deles derivados, e entre os objetos materiais derivados deles e os objetos materiais derivados das ciências puras, das invenções e da indústria. Os primeiros são rejeitados e não é permitido adotá-los, ao passo que é permitido adotar os segundos.
If it is said: Why did you adopt the technical term 'hadhara' for concepts and the term 'madaniyya' for material forms instead of the reverse? Hadhara in language, is residence in a civilised region (like towns), while 'al-hadhir' is the one who is of towns and villages. Al- Qatami said: 'Whoever is pleased with residing in towns. Which Bedouin men will see us?' While 'madana' in the place means to reside therein, and 'madina' means also to arrive to the town (madinah), so the two meanings are close to each other. It is said in response to this (self-directed) question: hadhara is used in the language for meanings related to thoughts, so it is closer to use it for concepts. It was said in 'Al-Qamus': "Hadhura is like nadusa which is the man of eloquence. (bayan) and understanding (fiqh)." In Al- Lisan, it is said: "a man 'hadhr' to mean eloquent, and a man 'hadhir' if he brought something good." It also came in 'Al-Lisan': "And in the hadith: 'Say that which yahdhurukum' i.e. that which is present and existing in you, and do not burden yourselves with something else." So hadhara is closer, more consistent and appropriate to use for the collection of concepts than using madaniyya, and madaniyya is closer to be used in material objects. It has been said that there is no contest in technical terminology (istilah), and what is important is distinguishing between concepts and material objects derived thereof, and material objects derived from them and material objects derived from pure sciences, inventions and industry. The first is rejected and it is not permitted to take them, while it is permitted to take the second.
Dissemos que a civilização (hadhara) é um conjunto de conceitos sobre a vida, e que ela é ou espiritual e divina (deeniyya) ou feita pelo homem. Um exemplo de civilização espiritual divina é a civilização islâmica, e exemplos de civilização feita pelo homem são a civilização indiana e a civilização ocidental. A existência destas civilizações é um fato definido e uma realidade incontestável, assim como a diferença entre elas, de tal modo que somente o mentiroso pode negá-la. A fonte da civilização divina, segundo os seus adeptos, é a revelação; a fonte da civilização feita pelo homem é o povo que acordou sobre ela. Isso por si só basta para a distinção e a diferença. Mesmo que surja um tipo de encontro em alguns dos conceitos, isso não é um acordo nem um assunto comum. Isto porque a civilização, quando é adotada, deve ser adotada juntamente com a base da qual emanou ou sobre a qual se apoia. Assim, se a base entre duas civilizações é diferente, a concordância entre alguns de seus conceitos, ou a existência de semelhança entre alguns de seus conceitos sobre a vida, não merece atenção alguma. Isto porque o conceito é um ramo de sua base (asl), e não pode ser adotado senão com a sua base. Tanto a civilização islâmica quanto a civilização ocidental permitem comer peixe, vestir lã, a propriedade privada, delegar à mulher, prestar contas ao governante e tomar remédio. No entanto, estes e semelhantes não são considerados da civilização islâmica a não ser que sejam adotados com base em serem revelação de Allah a Muhammad ﷺ, isto é, com base em serem Shar'a, enquanto são adotados na civilização capitalista com base em serem de interesse (maslaha) ou em serem aperfeiçoados pelas suas mentes. Se o muçulmano os adota com base em seu interesse (maslaha) ou no aperfeiçoamento racional, não se considera isso adoção do Islã.
We have said that the civilisation (hadhara) is a collection of concepts about life, and that either it is a spiritual divine one (deeniyya) or man- made. An example of the spiritual divine civilisation is the Islamic civilisation, and an example of the man-made are the Indian civilisation and Western civilisation. The existence of these civilisations is a definite matter and an incontestable established fact. Likewise is the difference between them, such that none but the liar can deny it. The source of the divine civilisation, according to its people, is revelation; the source of the man-made civilisation is the people who agreed on it. This alone suffices is enough for distinction and difference. Even if there appears a type of meeting in some of the concepts, this is not an agreement or a common matter. This is because civilisation, when it is adopted, must be adopted together with the basis from which it emanated or the basis it is built upon. So if the basis between two civilisations is different, the agreement between some of their concepts, or the existence of similarity between some of their concepts about life, is worth no attention. This is because the concept is a branch from its basis (asl), and it cannot be adopted except with its basis. Both the Islamic civilisation and the Western civilisation allow eating fish, wearing wool, private property, delegating the woman, accounting the ruler and taking medicine. However, these and their like are not considered of the Islamic civilisation unless they are adopted based upon being revelation from Allah to Muhammad i.e. upon their being Shar'a, whereas they are adopted in the Capitalist civilisation based upon their being of interest (maslaha) or their being ameliorated by their minds. If the Muslim adopts them based upon their interest (maslaha)or the rational amelioration, it is not considered adopting from Islam.
A diferença entre as civilizações é um fato que não admite qualquer possibilidade de negação. O que nos interessa é a diferença entre a civilização islâmica e as demais, em particular a civilização ocidental, e o que decorre dessa diferença ou se edifica sobre ela, tais como as questões do diálogo (al-hiwar), do choque (as-sira'a), a possibilidade de fundar uma civilização universal única, as formas e tipos de choque, e se o choque cessará, se ocultará ou se haverá a vitória de uma civilização sobre as outras. O que se entende por diálogo religioso entre as religiões, segundo aqueles que o convocam, e qual é a posição correta a respeito dele? Qual é a diferença entre religiões e civilizações, etc.?
The difference between civilisations is a matter of fact without any possibility to deny it. What concerns us is the difference between the Islamic civilisation and others, in particular the Western civilisation, and what results from this difference or is built upon it, such as the issues of dialogue (al-hiwar), the clash (as-sira'a), the possibility of founding one universal civilisation, the forms and types of clash and will the clash cease, hide or will there be a victory for one civilisation over others? What is meant by religious dialogue between religions in view of those who call for it, and what is the correct position regarding it? What is the difference between religions and civilisations etc?
As religiões são de dois tipos: um deen (religião) do qual emerge uma civilização, isto é, que possui um conjunto de conceitos sobre a vida, como o deen islâmico, e uma religião da qual não emerge nenhuma civilização e na qual não há um conjunto de conceitos. Embora tenha ideais como "Não roube e não cometa zina", ela não possui um conjunto de conceitos que abranja todos os aspectos da vida. Por isso, a religião cristã é um exemplo apropriado de religião da qual não emana civilização alguma.
Religions are of two types: A deen (religion) from which a civilisation emerges i.e. it has a collection of concepts about life, like the Islamic deen, and a religion from which no civilisation emerges - and there is no collection of concepts therein - like the Christian religion. Though it has ideals like 'Do not steal and do not commit zina', however, it has no collection of concepts covering all aspects of life. Hence, the Christian religion is an appropriate example of a religion from which no civilisation emanates.
A civilização capitalista não emana da religião cristã, mesmo que tenha surgido em países cujas populações são majoritariamente cristãs. Portanto, o diálogo, o confronto ou a parceria entre o Islã e o Cristianismo difere do diálogo ou confronto entre o Islã e a civilização capitalista.
The Capitalist civilisation does not emanate from the Christian religion; even if it came about in countries where the majority of their populations are Christians. So the dialogue or clash or partnership between Islam and Christianity differs from the dialogue or clash between it and the Capitalist civilisation.